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::..25.4.06..::

APESAR DE TUDO:

A poesia está na rua - Vieira da Silva



::..hugo..:: 19:23

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::..7.1.06..::

03:00: está alguém aí?



::..hugo..:: 03:02

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::..23.11.05..::

03:49: O Vidro Azul transmite em podcast. Vão lá ver.



::..hugo..:: 03:51

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::..15.11.05..::

22:15: hm.



::..hugo..:: 01:52

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::..20.7.05..::

22:15: and yet...



::..hugo..:: 00:27

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::..25.11.04..::

22:15: [...] não devemos subestimar o progresso que representa avançar da ignorância desnorteada para a perplexidade informada.



::..hugo..:: 22:18

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::..17.11.04..::

STRESS: o Rui do Touch of Evil, um blog que descobri há umas semanas e que sigo diariamente, sugere que a «situação de grande stress» a que o soldado estava sujeito pode, de alguma forma, justificar uma compreensão pelo que aconteceu. Eu discordo muito, muito disto.

Na CNN:
«The U.S. military is investigating whether a Marine shot dead an unarmed, wounded insurgent during the battle for Falluja in an incident captured on videotape by a pool reporter.»

pelos vistos, e a acreditar que as imagens (eu não as conheço) não deixem grande margem para dúvidas, o que aconteceu foi um marine assassinar um homem ferido E desarmado. Não estou a ver o que é que um homem ferido e desarmado possa dizer ou fazer que justifique uma história destas.

É claro que sabemos que isto vai ser investigado e o soldado será eventualmente castigado (levemente castigado); e que isso não acontece do outro lado. É verdade. Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que o acto, como tu muito bem disseste, é cruel e desumano. E que se vamos abrir o precedente de "compreender" a situação de grande stress que aquele homem ferido e desarmado causou no marine, então aí sim, estaremos à beira da barbárie. Eu até seria de aceitar o argumento do stress em relação a soldados que são obrigados a participar numa guerra; não é o caso. Eles estão lá porque escolheram estar lá; e isso só lhes traz responsabilidades acrescidas. É nossa obrigação não começar sequer a tentar justificar isso. Para compreender essa situação de stress teríamos também de compreender muitas outras situações de stress. E quando entramos nesse tipo de justificações o cenário bélico deixa de ter importância. É a pressão quem manda. E a pressão justifica tudo. Não podemos ir por aí.



::..hugo..:: 00:56

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::..10.11.04..::

MAIS SIDA: o Rodrigo respondeu ao meu post colocando várias questões:

Pergunto-lhes directamente: porque razão a Igreja se opõe ao uso do preservativo?

Percebo o objectivo com que o Rodrigo colocou a questão: quis separar a questão do preservativo da da SIDA. Isto porque, como se sabe, o apelo ao não uso do preservativo faz parte da doutrina da Igreja em relação à contracepção em geral, não apenas em relação à questão da SIDA e dos comportamentos sexuais. Mas Rodrigo, isso é impossível: tanto quanto se sabe, só há — no que ao comportamento sexual diz respeito — duas maneiras de ter a certeza de não contrair a doença: uma é não fazer sexo; a outra é fazê-lo com preservativo.
Caro Rodrigo, respondo-lhe com palavras da própria Igreja:

[...] Periodic continence, that is, the methods of birth regulation based on self-observation and the use of infertile periods, is in conformity with the objective criteria of morality. These methods respect the bodies of the spouses, encourage tenderness between them, and favor the education of an authentic freedom. In contrast, "every action which, whether in anticipation of the conjugal act, or in its accomplishment, or in the development of its natural consequences, proposes, whether as an end or as a means, to render procreation impossible" is intrinsically evil [...]

A contracepção artificial é intrinsecamente má, explicam-nos. A Igreja aceita os métodos contraceptivos naturais: a abstenção, a contagem dos dias de fertilidade; não aceita a pílula, o preservativo, etc. E isto é extraordinário. Consideremos dois casais. Um usa um método contraceptivo artificial — o preservativo, por exemplo; o outro usa o método da contagem dos dias férteis. Ambos os casais têm relações sexuais frequentemente. Ambos conseguem evitar a gravidez. A Igreja diz que um casal practica o Mal; e que o outro practica o Bem. Incrível. E não é apresentado uma única justificação para isto. Fascinante.

A Igreja opõe-se ao uso do preservativo, caro Rodrigo, porque na sua visão da realidade, os preservativos são uma coisa intrinsecamente má e o coitus interruptus uma coisa intrinsecamente boa. Procurei, sinceramente, perceber as razões que levam a Igreja a ver as coisas assim; mas esbarro sempre na "lei de Deus", na "palavra de Deus", na interpretação do "amor de Deus".

Depois o Rodrigo coloca uma série de questões, nem todas com sentido:

- O argumento tolerante. Qual é a solução? Expulsar todos os católicos de África?
Claro que não. Basta que deixem de apelar ao não uso do preservativo.

- O argumento inverso. Alguém acredita que se todos os sacerdotes e missionários católicos saíssem de África amanhã, a doença ficaria controlada?
Não. Mas o seu ritmo de expansão provavelmente abrandaria se deixassem de apelar ao não uso do preservativo.

- O argumento geográfico. Relaciona-se a propagação do vírus da sida ao papel da Igreja em África, mas não se aplica essa lógica à Europa. Porquê?
Porque os Europeus são, de uma maneira geral, mais esclarecidos que a maioria dos Africanos. Têm um maior bem-estar material e intelectual; dão menos importância à palavra da Igreja.

- O argumento absurdo. A Igreja é uma organização de homicidas com comportamentos psicóticos.
Não me viu afirmar nada de semelhante. Não percebo a relação com o tema em discussão.

- O argumento da responsabilização. Os missionários jesuítas deviam ser julgados do Tribunal Penal Internacional por genocídio.
Ver resposta anterior.

- O argumento da responsabilidade. Não cabe à Igreja promover políticas continentais de saúde.
Se é que cabe, então que o faça com responsabilidade. A Igreja tem, quer se goste quer não, um papel de guia espiritual e moral. Ver post anterior.

- O argumento ridículo. O acto da comunhão é um incentivo ao alcoolismo.
??????

Deixo-lhe uma questão apenas, Rodrigo. É uma questão simples: está convencido que este apelo ao não uso do preservativo não terá provocado — por via indirecta, é certo — uma morte que seja? Ou mil? Ou mais?



::..hugo..:: 00:42

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::..9.11.04..::

SIDA:

Diz Rodrigo Moita de Deus n' o Acidental:

"Há qualquer coisa de maldoso nesta insistente mania de relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA em África. Para princípio de conversa talvez seja bom lembrar que a Igreja não tem o direito, nem a autoridade de proibir seja o que for, seja a quem for. A Igreja tem uma doutrina que transmite aos seus crentes, que são livres de a respeitar ou simplesmente ignorar. Este ponto é importante, porque alguns, no seu fervor anti-clerical, são incapazes de distinguir ordens de recomendações, influência de autoritarismo e doutrina de legislação. "

Como se alguém falasse de autoridade legal; claro que não. Falamos, e RMD sabe-o, de autoridade moral — ou da ausência desta. Estamos nesta discussão no plano moral e não no político e é bom que isso seja claro — exactamente porque as críticas passam por aí. A política emana da moral — mas nem sempre da moral nasce a política. É inútil, portanto, invocar a "ausência de autoridade" da Igreja. A Igreja, é certo, não pode proibir ninguém de fazer seja o que fôr. Mas não é menos certo que ela representa, para milhões de pessoas em todo o mundo, um guia espiritual, um guia que as ajuda a distinguir o bem do mal, um guia ético. Nem é preciso irmos para os exemplos de África. Basta andarmos 100 km para o interior no nosso próprio país para vermos a força da Igreja católica em acção. A Igreja é uma autoridade moral para os crentes. E se é uma autoridade, tem de aceitar o reverso da medalha: a responsabilidade. Sabêmo-lo: para milhões de pessoas em todo o mundo a palavra do seu pároco de aldeia é mais importante que a palavra do professor dos seus filhos, que a palavra do seu médico, etc — quando existem. E isso confere à Igreja uma responsabilidade acrescida: a de saber que a sua palavra tem, de facto, poder. Tem o poder de dar às pessoas uma visão, muitas vezes única, sobre o mundo. Dizer que os crentes são livres de respeitar ou ignorar a doutrina da Igreja faz sentido se os crentes em causa tiverem condições materiais, intelectuais e emocionais para fazerem essa escolha; se for uma escolha totalmente livre. Quando os crentes têm como objectivo diário a sobrevivência, a Igreja — mais do que a Igreja, a fé — surge como uma imperiosa necessidade; porque é a única nesga de conforto espiritual que esses crentes têm. E se o pároco diz: «Não usem», eles, na sua vasta maioria, não usarão. E não, a escolha não será livre. Para usar uma expressão muito em voga, não há liberdade sem segurança. E se há coisa que os povos de África, na sua grande maioria, não têm, é exactamente a segurança.


Sim. É verdade que a Igreja em África não recomenda o uso do preservativo. Aliás, o que a Igreja diz em África é exactamente o mesmo que diz na Europa, na América ou em qualquer outro local do mundo. A doutrina não está sujeita a nuances geográficas. Que raio de doutrina religiosa seria esta se a Igreja defendesse no Congo algo que não era aplicável em França ou em Itália?

Verdade; nem nunca vi ninguém a afirmar o contrário. Eu, por exemplo, entendo que a opção da Igreja em relação a este assunto é — em todo o mundo — de uma pobreza moral aflitiva.


Relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA cai ainda noutro vício de raciocínio. Os anti-clericais não sabem, mas o zelo que a Igreja aplica para recomendar que o preservativo não seja utilizado é exactamente o mesmo - ou menor - com que defende as relações monogâmicas exclusivas e a santidade do matrimónio. Se os africanos fossem os pobres ingénuos influenciados pelas forças maldosas do Vaticano, que alguma esquerda gosta de retratar, o problema da SIDA em África dificilmente teria estas proporções.

O facto de a Igreja aplicar energias na difusão de várias ideias não confere a cada uma delas um valor moral específico. O facto de a Igreja defender as relações monogâmicas exclusivas e a «santidade do matrimónio» não confere imunidade crítica à ideia do não uso do preservativo.


Uma última nota para a memória selectiva. Os milhares de sacerdotes, missionários, freiras e voluntários que andam em África a "lutar contra o preservativo" são os mesmos que constroem casas, que constroem escolas, que ensinam as crianças a ler, que desenvolvem esforços humanitários e que arbitram conflitos. O seu trabalho diário também prova que mais do que as Nações Unidas e os próprios Estados, a única organização que tem sido capaz de ajudar o continente africano sem pedir nada em troca, é a Igreja. Mas isso já não interessa, pois não?

Nota do Autor: [...] há qualquer coisa nestas maldades e desonestidades intelectuais que me causam alergia.

Interessar interessa; mas não justifica. Argumentar que a Igreja, por fazer obras meritórias nalguns campos, deve estar isenta de crítica noutros, é que me parece que se aproxima da atitude que RMD critica na sua nota final. Acho que ninguém no seu perfeito juízo negará as muitas obras notáveis produzidas pela Igreja ao longo dos tempos — em particular, nas missões humanitárias. Agora querer usar isso como defesa para o vergonhoso apelo ao não uso do preservativo é, para além de um esforço ingrato, um argumento que não colhe. Seria como não culpar os Aliados pelos bombardeamentos indiscriminados que fizeram sobre a Alemanha no fim da guerra — porque, afinal de contas, depois houve o plano Marshall. Seria como não acusar Fidel, dizendo «mas vejam lá, têm um dos mais eficientes sistemas de saúde do mundo». Não. Fidel tem que cair. Os Aliados são culpados. A opção da Igreja neste assunto é imoral. Memória selectiva? Maldade? Desonestidade intelectual?



::..hugo..:: 02:18

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::..4.11.04..::

E MORAL: é curioso verificar que a maior parte dos estudos estatísticos apontam a preocupação com «questões morais» como uma das principais razões que levaram os eleitores de Bush a fazer a sua opção de voto. Não me parece que o motivo bélico para o caso do Iraque — e os subprodutos Guantanamo e Abu Ghraib, nos quais a administração Bush tem uma responsabilidade política óbvia — contribuam muito para esta noção. A moral — a única coisa que nos separa da barbárie — anda pelas ruas da amargura. Quando a população com maior poder sobre os destinos do mundo entende que uma razão válida para votar num homem sem espinha é exactamente a preocupação com «questões morais», temos razão para preocupação. A não ser que quisessem, na realidade, dizer «questões religiosas». Aí a coisa já faria mais sentido. Não seria melhor, mas pelo menos já se entenderia: seria uma questão de identificação.



::..hugo..:: 02:00

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UM PAÍS GIGANTE: o engano é nosso. Dizemos «América» e lembramo-nos de Nova Iorque e de Las Vegas. Mas a América não é só isso. Aliás, a América não é nada isso. «Isso» é o imaginário colectivo. «Isso» é apenas uma pequena parte, uma das mil facetas dos Estados Unidos. A América é feita disso e de muito mais: de campos de algodão, de centeio, de milho, de tabaco; de fábricas; de pequeno e grande comércio; de grandes pensadores e de grandes cretinos; de excelente e péssimo cinema, de excelente e péssima literatura; de Universidades que formam a maioria dos melhores cientistas do mundo, e ao mesmo tempo, de escolas que querem banir a teoria da evolução dos seus programas curriculares. É o país que mais pornografia produz; e, ao mesmo tempo, um país onde onde existe um Partido Proibicionista. A América — sobretudo a América rural, do interior — é um país profundamente conservador; e, nas circuntâncias actuais, mais conservador se torna. A América é gigante — e Nova Iorque apenas uma pequeníssima fracção dela.



::..hugo..:: 01:18

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::..3.11.04..::

AREIA DEMAIS: no mesmo dia em que Bush ganha, a Janela Indiscreta acaba. Já não tenho dúvidas: o mundo uniu-se para acabar comigo.



::..hugo..:: 23:12

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ACABOU: Bush mais quatro anos. Alguém me explica como é que um homem que desencadeia uma guerra com base numa mentira é reeleito? A expressão já está tão gasta que por vezes parece perder a força: «desencadear uma guerra baseado numa mentira»; mas quando a releio apercebo-me novamente do absurdo. Uma guerra.



::..hugo..:: 09:07

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::..31.10.04..::

WIGAN PIER:

[...] Uma cena fica gravada na minha memória como uma das imagens de Lancashire: as mulheres encorpadas, embrulhadas nos seus xailes, com os aventais de serapilheira e as pesadas socas pretas, ajoelhadas na lama pardacenta, ao vento, procurando ansiosamente pequenos bocados de carvão. E felizes por o poderem fazer. No Inverno, o combustível é um desespero, quase mais importante que a alimentação. E no entanto, por toda a parte e até perder de vista, lá estão os montes de escória e as máquinas de extracção das hulheiras, nenhuma das quais vende a totalidade do carvão que consegue produzir.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 137. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:02

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WIGAN PIER:

[...] Tomei consciência do problema do desemprego em 1928. […] As classes médias ainda falavam "desses preguiçosos que vivem de subsídios", dizendo que "todos esses homens podiam encontrar trabalho se quisessem"; e, naturalmente, essas opiniões infiltravam-se na própria classe operária. Lembro-me do choque e do espanto que senti quando convivi pela primeira vez com vagabundos e mendigos, ao descobrir que uma proporção razoável, talvez um quarto, desses seres, que me haviam ensinado a considerar como parasitas desavergonhados, eram afinal jovens mineiros e operários têxteis respeitáveis que encaravam o seu destino com a expressão perdida de um animal apanhado numa armadilha. Simplesmente não compreendiam o que lhes acontecera. Tinham sido trazidos ao mundo para trabalhar e, de repente, tudo se passava como se nunca mais viessem a ter a mínima hipótese de encontrar trabalho. Nestas condições, era inevitável sentirem-se, numa primeira fase, perseguidos por um sentimento de fracasso pessoal. Era a atitude que na altura prevalecia entre os desempregados - tratava-se de uma catástrofe que se abatia sobre a pessoa como tal e cuja responsabilidade lhe cabia só a ela.
    Quando um quarto de milhão de mineiros estão desempregados, faz parte da ordem das coisas que Alf Smith, mineiro a viver nas ruelas esconsas de Newcastle, fique sem trabalho. Não passa de um indivíduo entre um quarto de milhão, um dado estatístico. Enquanto Bert Jones, que mora na casa em frente, estiver empregado, Alf Smith será irremediavelmente levado a sentir-se desonrado, a considerar-se um falhado. Daí o terrível sentimento de impotência e de desespero, talvez um dos piores males do desemprego - muito pior do que qualquer privação, pior do que a desmoralização causada pela ociosidade forçada, e pouco melhor do que o lamentável estado de degenerescência física dos filhos de Alf Smith, nascidos quando ele já era subsidiado pelo PAC (Public Assistance Committees). […]

[…] as pessoas deixaram de se debater contra a situação. No fim de contas, até as classes médias - sim, até os clubes de bridge nas cidades de província - começam a perceber que o desemprego existe. São cada vez menos frequentes frases que há cinco anos se ouviam em qualquer chá decente, do género: "Minha querida, não acredito nesses disparates a respeito do desemprego. Olhe, ainda na semana passada quisemos um homem para apanhar as ervas daninhas do jardim e não conseguimos. Não querem trabalhar, é o que é!" Quanto à classe operária, progrediu muito na compreensão dos mecanismos económicos. Penso que o Daily Worker desempenhou nesse processo um papel considerável: a sua influência é muito maior do que a sua circulação.


George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 116-118. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:01

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WIGAN PIER:

[...] A primeira coisa que deve impressionar qualquer observador de fora é que o socialismo, na sua forma desenvolvida, é uma teoria circunscrita por inteiro à classe média. O socialista típico não é, como imaginam as velhinhas caquécticas, um trabalhador de ar façanhudo com um grande fato-macaco e voz rouca. Ou é um jovem bolchevique de salão que dentro de cinco anos terá feito um bom casamento e se terá convertido ao catolicismo; ou, o que ainda é mais típico, é um homenzinho emproado com um emprego de escritório, em geral discretamente abstémio e muitas vezes com inclinações vegetarianas, com uma história de inconformismo e, acima de tudo, com uma posição social que não tenciona abandonar.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 212-213. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:00

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WIGAN PIER:

[...] a maioria dos socialistas de classe média, embora em teoria concordem com uma sociedade sem classes, agarram-se com unhas e dentes aos seus miseráveis restos de prestígio social. Lembro-me das sensações de horror que senti quando assisti às primeiras reuniões da minha secção local do ILP* em Londres. (Talvez tivesse sido muito diferente no Norte, onde as burguesia está menos concentrada.) Pensei: «Afinal estes animaizinhos mesquinhos é que são os campeões da classe operária?» Porque todas as pessoas presentes, homens ou mulheres, exibiam os piores sinais dessa atitude de superioridade altiva própria da classe média. Se um trabalhador autêntico, um mineiro vindo do fundo da mina ainda coberto de fuligem, por exemplo, entrasse de repente por ali adentro, teriam ficado interditos, furiosos e incomodados; imagino que alguns fugiriam apertando o nariz.

* O ILP (Independent Labour Party) era o partido de George Orwell.


George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 214-215. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 16:55

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WIGAN PIER:

[...] Dito isto, é verdade que as «classes baixas» cheiram mal? Sem dúvida que, em geral, são mais porcas que as classes altas. Outra coisa não seria de esperar, considerando as circunstâncias em que vivem, porque, até há bem pouco tempo, só menos de metade das casas na Inglaterra tinham quartos de banho. Além disso, o hábito de se lavar todo o corpo diariamente é muito recente na Europa, e as classes trabalhadoras são em regra mais conservadoras do que a burguesia. Mas os ingleses estão a tornar-se visivelmente mais limpos e podemos esperar que, dentro de cem anos, sejam quase tão asseados como os japoneses.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 165. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 16:55

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::..30.10.04..::

OBL: afinal, bin Laden está vivo; e não só está vivo como divulga um vídeo mesmo antes das eleições. Isto não é inocente. Este vídeo vai provavelmente valer umas centenas de milhares de votos para Bush. Bush e bin Laden precisam um do outro para garantir a sobrevivência das suas «doutrinas» no curto prazo; Bush precisa de Laden porque baseou toda uma campanha no medo, no apelo às emoções mais básicas que acabou por lhe valer a sobrevivência política; porque sem inimigo não há guerra; e se for um inimigo difícil, escondido, incompreensível, se for um inimigo que mal reconhecemos como humano, tanto melhor. E bin Laden precisa de Bush; só assim garantirá o alistamento de mais alguns milhares de jovens para as suas «causas», para a eterna luta contra o imperialismo. Bin Laden precisa de Bush na cadeira da presidência; e Bush precisa de bin Laden vivo, escondido, inacessível. E são estes dois homens — que tanto jeito dão um ao outro — as personagens provavelmente mais importantes dos últimos anos na cena política internacional. Que mundo o nosso.



::..hugo..:: 15:39

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::..29.10.04..::

VON:



Descobri — através do Tomografia das Emoções — que Von, o primeiro álbum dos Sigur Rós, foi finalmente editado em Portugal. E eu não o estou a ouvir. O cd existe, está por aí, está disponível, e eu não o conheço. Nota mental: reavaliar prioridades — mas primeiro, comprar o cd.



::..hugo..:: 02:13

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::..28.10.04..::

O MUNDO SEGUNDO DURDEN: God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.

Tyler Durden em Fight Club

(Cheguei a este texto procurando na net o texto original que tinha lido traduzido n'A Espuma dos dias. Isto é, portanto, um roubo.)



::..hugo..:: 00:05

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::..26.10.04..::

INDECISION 2004: cheguei a isto e a isto através do blog do Andrew Sullivan. No primeiro caso, um candidato republicano ao senado explica que o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode levar — literalmente — ao fim do mundo. No segundo, um outro candidato republicano defende a introdução da pena de morte para os gays. Sim, leram bem.



::..hugo..:: 23:36

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UMA CARTA: Andamos por aí — o trânsito prova-o — e nem reparamos no caminho. Fazemos coisas, produzimos quantidades absurdas de coisas — sem que ninguém perceba muito bem para quê. Transmitimos mensagens em massa, em série; mas não comunicamos. Compramos telemóveis com câmaras e jogos e ecrãs a cores e toques polifónicos e o raio que os parta; e ninguém telefona. Escrevemos mails com os ridículos lols e bonecos feitos com parêntesis e pontos e vírgulas. Às vezes nem os escrevemos: reencaminhamo-los. Não escrevemos cartões de Natal — compramo-los com o texto já escrito. Já ninguém escreve uma puta de uma carta. Uma carta como antigamente: um texto que se escrevia e se revia e se passava a limpo. Uma carta.



::..hugo..:: 01:49

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::..25.10.04..::

QUEM É ESTA MULHER? :



::..hugo..:: 00:20

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::..22.10.04..::

HOJE É ISTO:



::..hugo..:: 21:57

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MY HANDS ‘ROUND YOUR THROAT:



My hands ‘round your throat
If I kill you now, well, they will never know
Wake me up if I’m sleeping
By the look in your eyes I know the time’s nearly come
Wake me up ‘cause I’m dreaming
Well, they’ll never believe what’s been happening here
But caught in my mind there’s a way to get out


Tindersticks - Until the morning comes



::..hugo..:: 01:16

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THE END:



A morte cerebral já tinha acontecido há muito; o doutor limitou-se a desligar a máquina. Uma eutanásia passiva e piedosa. O Pastilhas acabou. Foi lá que isto tudo começou. Começou para mim, e começou para os blogues que se seguem — perdoar-me-ão as omissões, não me lembro de todos. Obrigado Miguel.

A Bomba
A causa foi modificada
A memória Inventada
Avenida Vastulec
Bomba Inteligente
Contra a corrente
Crónicas Matinais
Diários de Madrid
Papoila
Sem querer penso
Senhor Carne
Triciclo Feliz
Umbigo Niilista
Vodka7

Adenda: E quase me esquecia da Zazie. E esqueci-me mesmo do SK. Mil perdões.



::..hugo..:: 01:11

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::..19.10.04..::

UM MAL:

Mas não sei se sobrevivo a Larkin e à escarlatina.

O Luís anuncia assim n'A Natureza do Mal que abandona o blog. O Mal é para aí um dos melhores blogs que conheço. Tenho imensa pena. Espero que o Luís consiga sobreviver a Hull e à escarlatina. O Mal vai mudar. Os posts da Sofia já seriam por si só suficientes para fazer do Mal um excelente blog; se a isso somarmos a recente contratação do Bartleby, obtemos a garantia que queremos. O selo do ICQ. Luís: foi um Larkin que te levou; é com outro Larkin que te digo adeus:

High Windows

When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives-
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Philip Larkin



::..hugo..:: 22:42

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::..16.10.04..::

CONTRATAÇÕES: há um novo participante no blog das maldades. Agora vai ser melhor ainda.



::..hugo..:: 19:34

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::..14.10.04..::

EM ESCUTA (2 de 3):



O velho voz de gravilha não desiste. Desta vez abusa da voz fazendo dela percussão. Incrível. E é claro que não podiam faltar os instrumentos improvisados. Alguém já tocou um cigar box banjo ? E um chamberlain, o que é? O dicionário que consultei disse: "camareiro". Procurei esta última num dicionário de português e encontrei isto:

camareiro: substantivo masculino; fidalgo que serve na câmara real; dignidade da corte pontifícia; bacio de quarto; (De câmara+-eiro)

Supondo que tanto os fidalgos como as dignidades da corte pontifícia não servem como instrumentos musicais, ficamos com a solução — modesta — do bacio de quarto. Um penico. Estarei enganado? Esclareçam-me. Gostava de saber. Tom Waits grava penicos? E como? Como se tocam penicos? Aos pares, como castanholas? O mail está lá em cima.



::..hugo..:: 22:47

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