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::..31.10.04..::

WIGAN PIER:

[...] Uma cena fica gravada na minha memória como uma das imagens de Lancashire: as mulheres encorpadas, embrulhadas nos seus xailes, com os aventais de serapilheira e as pesadas socas pretas, ajoelhadas na lama pardacenta, ao vento, procurando ansiosamente pequenos bocados de carvão. E felizes por o poderem fazer. No Inverno, o combustível é um desespero, quase mais importante que a alimentação. E no entanto, por toda a parte e até perder de vista, lá estão os montes de escória e as máquinas de extracção das hulheiras, nenhuma das quais vende a totalidade do carvão que consegue produzir.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 137. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:02

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WIGAN PIER:

[...] Tomei consciência do problema do desemprego em 1928. […] As classes médias ainda falavam "desses preguiçosos que vivem de subsídios", dizendo que "todos esses homens podiam encontrar trabalho se quisessem"; e, naturalmente, essas opiniões infiltravam-se na própria classe operária. Lembro-me do choque e do espanto que senti quando convivi pela primeira vez com vagabundos e mendigos, ao descobrir que uma proporção razoável, talvez um quarto, desses seres, que me haviam ensinado a considerar como parasitas desavergonhados, eram afinal jovens mineiros e operários têxteis respeitáveis que encaravam o seu destino com a expressão perdida de um animal apanhado numa armadilha. Simplesmente não compreendiam o que lhes acontecera. Tinham sido trazidos ao mundo para trabalhar e, de repente, tudo se passava como se nunca mais viessem a ter a mínima hipótese de encontrar trabalho. Nestas condições, era inevitável sentirem-se, numa primeira fase, perseguidos por um sentimento de fracasso pessoal. Era a atitude que na altura prevalecia entre os desempregados - tratava-se de uma catástrofe que se abatia sobre a pessoa como tal e cuja responsabilidade lhe cabia só a ela.
    Quando um quarto de milhão de mineiros estão desempregados, faz parte da ordem das coisas que Alf Smith, mineiro a viver nas ruelas esconsas de Newcastle, fique sem trabalho. Não passa de um indivíduo entre um quarto de milhão, um dado estatístico. Enquanto Bert Jones, que mora na casa em frente, estiver empregado, Alf Smith será irremediavelmente levado a sentir-se desonrado, a considerar-se um falhado. Daí o terrível sentimento de impotência e de desespero, talvez um dos piores males do desemprego - muito pior do que qualquer privação, pior do que a desmoralização causada pela ociosidade forçada, e pouco melhor do que o lamentável estado de degenerescência física dos filhos de Alf Smith, nascidos quando ele já era subsidiado pelo PAC (Public Assistance Committees). […]

[…] as pessoas deixaram de se debater contra a situação. No fim de contas, até as classes médias - sim, até os clubes de bridge nas cidades de província - começam a perceber que o desemprego existe. São cada vez menos frequentes frases que há cinco anos se ouviam em qualquer chá decente, do género: "Minha querida, não acredito nesses disparates a respeito do desemprego. Olhe, ainda na semana passada quisemos um homem para apanhar as ervas daninhas do jardim e não conseguimos. Não querem trabalhar, é o que é!" Quanto à classe operária, progrediu muito na compreensão dos mecanismos económicos. Penso que o Daily Worker desempenhou nesse processo um papel considerável: a sua influência é muito maior do que a sua circulação.


George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 116-118. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:01

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WIGAN PIER:

[...] A primeira coisa que deve impressionar qualquer observador de fora é que o socialismo, na sua forma desenvolvida, é uma teoria circunscrita por inteiro à classe média. O socialista típico não é, como imaginam as velhinhas caquécticas, um trabalhador de ar façanhudo com um grande fato-macaco e voz rouca. Ou é um jovem bolchevique de salão que dentro de cinco anos terá feito um bom casamento e se terá convertido ao catolicismo; ou, o que ainda é mais típico, é um homenzinho emproado com um emprego de escritório, em geral discretamente abstémio e muitas vezes com inclinações vegetarianas, com uma história de inconformismo e, acima de tudo, com uma posição social que não tenciona abandonar.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 212-213. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 17:00

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WIGAN PIER:

[...] a maioria dos socialistas de classe média, embora em teoria concordem com uma sociedade sem classes, agarram-se com unhas e dentes aos seus miseráveis restos de prestígio social. Lembro-me das sensações de horror que senti quando assisti às primeiras reuniões da minha secção local do ILP* em Londres. (Talvez tivesse sido muito diferente no Norte, onde as burguesia está menos concentrada.) Pensei: «Afinal estes animaizinhos mesquinhos é que são os campeões da classe operária?» Porque todas as pessoas presentes, homens ou mulheres, exibiam os piores sinais dessa atitude de superioridade altiva própria da classe média. Se um trabalhador autêntico, um mineiro vindo do fundo da mina ainda coberto de fuligem, por exemplo, entrasse de repente por ali adentro, teriam ficado interditos, furiosos e incomodados; imagino que alguns fugiriam apertando o nariz.

* O ILP (Independent Labour Party) era o partido de George Orwell.


George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 214-215. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 16:55

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WIGAN PIER:

[...] Dito isto, é verdade que as «classes baixas» cheiram mal? Sem dúvida que, em geral, são mais porcas que as classes altas. Outra coisa não seria de esperar, considerando as circunstâncias em que vivem, porque, até há bem pouco tempo, só menos de metade das casas na Inglaterra tinham quartos de banho. Além disso, o hábito de se lavar todo o corpo diariamente é muito recente na Europa, e as classes trabalhadoras são em regra mais conservadoras do que a burguesia. Mas os ingleses estão a tornar-se visivelmente mais limpos e podemos esperar que, dentro de cem anos, sejam quase tão asseados como os japoneses.

George Orwell in O caminho para Wigan Pier, 1937. Edição Portuguesa: Antígona, 2003, p. 165. Tradução de Ana Barradas



::..hugo..:: 16:55

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::..30.10.04..::

OBL: afinal, bin Laden está vivo; e não só está vivo como divulga um vídeo mesmo antes das eleições. Isto não é inocente. Este vídeo vai provavelmente valer umas centenas de milhares de votos para Bush. Bush e bin Laden precisam um do outro para garantir a sobrevivência das suas «doutrinas» no curto prazo; Bush precisa de Laden porque baseou toda uma campanha no medo, no apelo às emoções mais básicas que acabou por lhe valer a sobrevivência política; porque sem inimigo não há guerra; e se for um inimigo difícil, escondido, incompreensível, se for um inimigo que mal reconhecemos como humano, tanto melhor. E bin Laden precisa de Bush; só assim garantirá o alistamento de mais alguns milhares de jovens para as suas «causas», para a eterna luta contra o imperialismo. Bin Laden precisa de Bush na cadeira da presidência; e Bush precisa de bin Laden vivo, escondido, inacessível. E são estes dois homens — que tanto jeito dão um ao outro — as personagens provavelmente mais importantes dos últimos anos na cena política internacional. Que mundo o nosso.



::..hugo..:: 15:39

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::..29.10.04..::

VON:



Descobri — através do Tomografia das Emoções — que Von, o primeiro álbum dos Sigur Rós, foi finalmente editado em Portugal. E eu não o estou a ouvir. O cd existe, está por aí, está disponível, e eu não o conheço. Nota mental: reavaliar prioridades — mas primeiro, comprar o cd.



::..hugo..:: 02:13

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::..28.10.04..::

O MUNDO SEGUNDO DURDEN: God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.

Tyler Durden em Fight Club

(Cheguei a este texto procurando na net o texto original que tinha lido traduzido n'A Espuma dos dias. Isto é, portanto, um roubo.)



::..hugo..:: 00:05

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::..26.10.04..::

INDECISION 2004: cheguei a isto e a isto através do blog do Andrew Sullivan. No primeiro caso, um candidato republicano ao senado explica que o casamento entre pessoas do mesmo sexo pode levar — literalmente — ao fim do mundo. No segundo, um outro candidato republicano defende a introdução da pena de morte para os gays. Sim, leram bem.



::..hugo..:: 23:36

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UMA CARTA: Andamos por aí — o trânsito prova-o — e nem reparamos no caminho. Fazemos coisas, produzimos quantidades absurdas de coisas — sem que ninguém perceba muito bem para quê. Transmitimos mensagens em massa, em série; mas não comunicamos. Compramos telemóveis com câmaras e jogos e ecrãs a cores e toques polifónicos e o raio que os parta; e ninguém telefona. Escrevemos mails com os ridículos lols e bonecos feitos com parêntesis e pontos e vírgulas. Às vezes nem os escrevemos: reencaminhamo-los. Não escrevemos cartões de Natal — compramo-los com o texto já escrito. Já ninguém escreve uma puta de uma carta. Uma carta como antigamente: um texto que se escrevia e se revia e se passava a limpo. Uma carta.



::..hugo..:: 01:49

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::..25.10.04..::

QUEM É ESTA MULHER? :



::..hugo..:: 00:20

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::..22.10.04..::

HOJE É ISTO:



::..hugo..:: 21:57

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MY HANDS ‘ROUND YOUR THROAT:



My hands ‘round your throat
If I kill you now, well, they will never know
Wake me up if I’m sleeping
By the look in your eyes I know the time’s nearly come
Wake me up ‘cause I’m dreaming
Well, they’ll never believe what’s been happening here
But caught in my mind there’s a way to get out


Tindersticks - Until the morning comes



::..hugo..:: 01:16

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THE END:



A morte cerebral já tinha acontecido há muito; o doutor limitou-se a desligar a máquina. Uma eutanásia passiva e piedosa. O Pastilhas acabou. Foi lá que isto tudo começou. Começou para mim, e começou para os blogues que se seguem — perdoar-me-ão as omissões, não me lembro de todos. Obrigado Miguel.

A Bomba
A causa foi modificada
A memória Inventada
Avenida Vastulec
Bomba Inteligente
Contra a corrente
Crónicas Matinais
Diários de Madrid
Papoila
Sem querer penso
Senhor Carne
Triciclo Feliz
Umbigo Niilista
Vodka7

Adenda: E quase me esquecia da Zazie. E esqueci-me mesmo do SK. Mil perdões.



::..hugo..:: 01:11

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::..19.10.04..::

UM MAL:

Mas não sei se sobrevivo a Larkin e à escarlatina.

O Luís anuncia assim n'A Natureza do Mal que abandona o blog. O Mal é para aí um dos melhores blogs que conheço. Tenho imensa pena. Espero que o Luís consiga sobreviver a Hull e à escarlatina. O Mal vai mudar. Os posts da Sofia já seriam por si só suficientes para fazer do Mal um excelente blog; se a isso somarmos a recente contratação do Bartleby, obtemos a garantia que queremos. O selo do ICQ. Luís: foi um Larkin que te levou; é com outro Larkin que te digo adeus:

High Windows

When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives-
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.

Philip Larkin



::..hugo..:: 22:42

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::..16.10.04..::

CONTRATAÇÕES: há um novo participante no blog das maldades. Agora vai ser melhor ainda.



::..hugo..:: 19:34

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::..14.10.04..::

EM ESCUTA (2 de 3):



O velho voz de gravilha não desiste. Desta vez abusa da voz fazendo dela percussão. Incrível. E é claro que não podiam faltar os instrumentos improvisados. Alguém já tocou um cigar box banjo ? E um chamberlain, o que é? O dicionário que consultei disse: "camareiro". Procurei esta última num dicionário de português e encontrei isto:

camareiro: substantivo masculino; fidalgo que serve na câmara real; dignidade da corte pontifícia; bacio de quarto; (De câmara+-eiro)

Supondo que tanto os fidalgos como as dignidades da corte pontifícia não servem como instrumentos musicais, ficamos com a solução — modesta — do bacio de quarto. Um penico. Estarei enganado? Esclareçam-me. Gostava de saber. Tom Waits grava penicos? E como? Como se tocam penicos? Aos pares, como castanholas? O mail está lá em cima.



::..hugo..:: 22:47

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::..10.10.04..::

A MORTE NÃO É O FIM:

neste caso até é o princípio de muitas coisas. Excelente. É espantoso como o desnorte e o cinismo — quando vistos por uma lupa pós-moderna — podem ser tão belos. Só é pena a RTP 2 ter descontinuado a transmissão desta série. Nos EUA a produção continua e já está no ar a 4ª época.



::..hugo..:: 16:21

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::..7.10.04..::

AZUL:



nunca nenhuma noite
será como a noite
em que explicamos o mundo
em que sabemos do mundo
mais do que ele de nós;
nenhum argumento será tão perfeito como o gin & tonic
que tomamos na noite azul



::..hugo..:: 00:48

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::..5.10.04..::

O FILME IMPOSSÍVEL: vi Lost in Translation em Janeiro. Revi-o ontem. Tudo na mesma: continua a ser o meu filme do ano; continuo a não conseguir dizer nada de jeito sobre ele.



::..hugo..:: 03:53

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::..4.10.04..::

Hüsker Dü: pronounced Hoo-sker Doo



::..hugo..:: 00:35

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GOOGLE ME: miss+benfica+ponte+de+lima. Reparem: "Miss Benfica Ponte de Lima". "Miss Benfica Ponte de Lima". Não consigo parar. "Miss Benfica Ponte de Lima".



::..hugo..:: 00:26

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::..1.10.04..::

K:



para quem gosta de Kafka (ou seja, qualquer pessoa esclarecida), aqui está uma mini-biografia que vale a pena ler. É impossível falar de Kafka sem falar de Praga.



::..hugo..:: 01:11

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