Ford Mustang

cinema, poesia e outras inutilidades
:: banco do passageiro no Ford Mustang :: garagem | correio ::
::..experimenta isto..::
:: david lynch
:: george carlin
:: historynet
:: lado negro
:: lightstripping
:: newgrounds
:: pastilhas
:: too much coffee man
:: tormentas
::..blogosfera..::
:: a aba de Heisenberg
:: a causa modificada
:: a espuma dos dias
:: a natureza do mal
:: barnabé
:: bde
:: bomba inteligente
:: brasileira preta
:: chato
:: contra a corrente
:: crónicas matinais
:: diários de Lisboa
:: estações diferentes
:: extravaganza
:: fora do mundo
:: infames
:: lego en madrid
:: little black spot
:: marretas
:: memória inventada
:: mundo imaginado
:: musas esqueléticas
:: no arame
:: o complot
:: oficina das ideias
:: papoila
:: sem querer
:: stand-up
:: touch of evil
:: vastulec
:: vidro azul
::..FM..::
:: kcrw
:: xfm
:: bbc
:: ruc
::..arquivo..::

::..25.11.04..::

22:15: [...] não devemos subestimar o progresso que representa avançar da ignorância desnorteada para a perplexidade informada.



::..hugo..:: 22:18

__________________________________________________________

::..17.11.04..::

STRESS: o Rui do Touch of Evil, um blog que descobri há umas semanas e que sigo diariamente, sugere que a «situação de grande stress» a que o soldado estava sujeito pode, de alguma forma, justificar uma compreensão pelo que aconteceu. Eu discordo muito, muito disto.

Na CNN:
«The U.S. military is investigating whether a Marine shot dead an unarmed, wounded insurgent during the battle for Falluja in an incident captured on videotape by a pool reporter.»

pelos vistos, e a acreditar que as imagens (eu não as conheço) não deixem grande margem para dúvidas, o que aconteceu foi um marine assassinar um homem ferido E desarmado. Não estou a ver o que é que um homem ferido e desarmado possa dizer ou fazer que justifique uma história destas.

É claro que sabemos que isto vai ser investigado e o soldado será eventualmente castigado (levemente castigado); e que isso não acontece do outro lado. É verdade. Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que o acto, como tu muito bem disseste, é cruel e desumano. E que se vamos abrir o precedente de "compreender" a situação de grande stress que aquele homem ferido e desarmado causou no marine, então aí sim, estaremos à beira da barbárie. Eu até seria de aceitar o argumento do stress em relação a soldados que são obrigados a participar numa guerra; não é o caso. Eles estão lá porque escolheram estar lá; e isso só lhes traz responsabilidades acrescidas. É nossa obrigação não começar sequer a tentar justificar isso. Para compreender essa situação de stress teríamos também de compreender muitas outras situações de stress. E quando entramos nesse tipo de justificações o cenário bélico deixa de ter importância. É a pressão quem manda. E a pressão justifica tudo. Não podemos ir por aí.



::..hugo..:: 00:56

__________________________________________________________

::..10.11.04..::

MAIS SIDA: o Rodrigo respondeu ao meu post colocando várias questões:

Pergunto-lhes directamente: porque razão a Igreja se opõe ao uso do preservativo?

Percebo o objectivo com que o Rodrigo colocou a questão: quis separar a questão do preservativo da da SIDA. Isto porque, como se sabe, o apelo ao não uso do preservativo faz parte da doutrina da Igreja em relação à contracepção em geral, não apenas em relação à questão da SIDA e dos comportamentos sexuais. Mas Rodrigo, isso é impossível: tanto quanto se sabe, só há — no que ao comportamento sexual diz respeito — duas maneiras de ter a certeza de não contrair a doença: uma é não fazer sexo; a outra é fazê-lo com preservativo.
Caro Rodrigo, respondo-lhe com palavras da própria Igreja:

[...] Periodic continence, that is, the methods of birth regulation based on self-observation and the use of infertile periods, is in conformity with the objective criteria of morality. These methods respect the bodies of the spouses, encourage tenderness between them, and favor the education of an authentic freedom. In contrast, "every action which, whether in anticipation of the conjugal act, or in its accomplishment, or in the development of its natural consequences, proposes, whether as an end or as a means, to render procreation impossible" is intrinsically evil [...]

A contracepção artificial é intrinsecamente má, explicam-nos. A Igreja aceita os métodos contraceptivos naturais: a abstenção, a contagem dos dias de fertilidade; não aceita a pílula, o preservativo, etc. E isto é extraordinário. Consideremos dois casais. Um usa um método contraceptivo artificial — o preservativo, por exemplo; o outro usa o método da contagem dos dias férteis. Ambos os casais têm relações sexuais frequentemente. Ambos conseguem evitar a gravidez. A Igreja diz que um casal practica o Mal; e que o outro practica o Bem. Incrível. E não é apresentado uma única justificação para isto. Fascinante.

A Igreja opõe-se ao uso do preservativo, caro Rodrigo, porque na sua visão da realidade, os preservativos são uma coisa intrinsecamente má e o coitus interruptus uma coisa intrinsecamente boa. Procurei, sinceramente, perceber as razões que levam a Igreja a ver as coisas assim; mas esbarro sempre na "lei de Deus", na "palavra de Deus", na interpretação do "amor de Deus".

Depois o Rodrigo coloca uma série de questões, nem todas com sentido:

- O argumento tolerante. Qual é a solução? Expulsar todos os católicos de África?
Claro que não. Basta que deixem de apelar ao não uso do preservativo.

- O argumento inverso. Alguém acredita que se todos os sacerdotes e missionários católicos saíssem de África amanhã, a doença ficaria controlada?
Não. Mas o seu ritmo de expansão provavelmente abrandaria se deixassem de apelar ao não uso do preservativo.

- O argumento geográfico. Relaciona-se a propagação do vírus da sida ao papel da Igreja em África, mas não se aplica essa lógica à Europa. Porquê?
Porque os Europeus são, de uma maneira geral, mais esclarecidos que a maioria dos Africanos. Têm um maior bem-estar material e intelectual; dão menos importância à palavra da Igreja.

- O argumento absurdo. A Igreja é uma organização de homicidas com comportamentos psicóticos.
Não me viu afirmar nada de semelhante. Não percebo a relação com o tema em discussão.

- O argumento da responsabilização. Os missionários jesuítas deviam ser julgados do Tribunal Penal Internacional por genocídio.
Ver resposta anterior.

- O argumento da responsabilidade. Não cabe à Igreja promover políticas continentais de saúde.
Se é que cabe, então que o faça com responsabilidade. A Igreja tem, quer se goste quer não, um papel de guia espiritual e moral. Ver post anterior.

- O argumento ridículo. O acto da comunhão é um incentivo ao alcoolismo.
??????

Deixo-lhe uma questão apenas, Rodrigo. É uma questão simples: está convencido que este apelo ao não uso do preservativo não terá provocado — por via indirecta, é certo — uma morte que seja? Ou mil? Ou mais?



::..hugo..:: 00:42

__________________________________________________________

::..9.11.04..::

SIDA:

Diz Rodrigo Moita de Deus n' o Acidental:

"Há qualquer coisa de maldoso nesta insistente mania de relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA em África. Para princípio de conversa talvez seja bom lembrar que a Igreja não tem o direito, nem a autoridade de proibir seja o que for, seja a quem for. A Igreja tem uma doutrina que transmite aos seus crentes, que são livres de a respeitar ou simplesmente ignorar. Este ponto é importante, porque alguns, no seu fervor anti-clerical, são incapazes de distinguir ordens de recomendações, influência de autoritarismo e doutrina de legislação. "

Como se alguém falasse de autoridade legal; claro que não. Falamos, e RMD sabe-o, de autoridade moral — ou da ausência desta. Estamos nesta discussão no plano moral e não no político e é bom que isso seja claro — exactamente porque as críticas passam por aí. A política emana da moral — mas nem sempre da moral nasce a política. É inútil, portanto, invocar a "ausência de autoridade" da Igreja. A Igreja, é certo, não pode proibir ninguém de fazer seja o que fôr. Mas não é menos certo que ela representa, para milhões de pessoas em todo o mundo, um guia espiritual, um guia que as ajuda a distinguir o bem do mal, um guia ético. Nem é preciso irmos para os exemplos de África. Basta andarmos 100 km para o interior no nosso próprio país para vermos a força da Igreja católica em acção. A Igreja é uma autoridade moral para os crentes. E se é uma autoridade, tem de aceitar o reverso da medalha: a responsabilidade. Sabêmo-lo: para milhões de pessoas em todo o mundo a palavra do seu pároco de aldeia é mais importante que a palavra do professor dos seus filhos, que a palavra do seu médico, etc — quando existem. E isso confere à Igreja uma responsabilidade acrescida: a de saber que a sua palavra tem, de facto, poder. Tem o poder de dar às pessoas uma visão, muitas vezes única, sobre o mundo. Dizer que os crentes são livres de respeitar ou ignorar a doutrina da Igreja faz sentido se os crentes em causa tiverem condições materiais, intelectuais e emocionais para fazerem essa escolha; se for uma escolha totalmente livre. Quando os crentes têm como objectivo diário a sobrevivência, a Igreja — mais do que a Igreja, a fé — surge como uma imperiosa necessidade; porque é a única nesga de conforto espiritual que esses crentes têm. E se o pároco diz: «Não usem», eles, na sua vasta maioria, não usarão. E não, a escolha não será livre. Para usar uma expressão muito em voga, não há liberdade sem segurança. E se há coisa que os povos de África, na sua grande maioria, não têm, é exactamente a segurança.


Sim. É verdade que a Igreja em África não recomenda o uso do preservativo. Aliás, o que a Igreja diz em África é exactamente o mesmo que diz na Europa, na América ou em qualquer outro local do mundo. A doutrina não está sujeita a nuances geográficas. Que raio de doutrina religiosa seria esta se a Igreja defendesse no Congo algo que não era aplicável em França ou em Itália?

Verdade; nem nunca vi ninguém a afirmar o contrário. Eu, por exemplo, entendo que a opção da Igreja em relação a este assunto é — em todo o mundo — de uma pobreza moral aflitiva.


Relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA cai ainda noutro vício de raciocínio. Os anti-clericais não sabem, mas o zelo que a Igreja aplica para recomendar que o preservativo não seja utilizado é exactamente o mesmo - ou menor - com que defende as relações monogâmicas exclusivas e a santidade do matrimónio. Se os africanos fossem os pobres ingénuos influenciados pelas forças maldosas do Vaticano, que alguma esquerda gosta de retratar, o problema da SIDA em África dificilmente teria estas proporções.

O facto de a Igreja aplicar energias na difusão de várias ideias não confere a cada uma delas um valor moral específico. O facto de a Igreja defender as relações monogâmicas exclusivas e a «santidade do matrimónio» não confere imunidade crítica à ideia do não uso do preservativo.


Uma última nota para a memória selectiva. Os milhares de sacerdotes, missionários, freiras e voluntários que andam em África a "lutar contra o preservativo" são os mesmos que constroem casas, que constroem escolas, que ensinam as crianças a ler, que desenvolvem esforços humanitários e que arbitram conflitos. O seu trabalho diário também prova que mais do que as Nações Unidas e os próprios Estados, a única organização que tem sido capaz de ajudar o continente africano sem pedir nada em troca, é a Igreja. Mas isso já não interessa, pois não?

Nota do Autor: [...] há qualquer coisa nestas maldades e desonestidades intelectuais que me causam alergia.

Interessar interessa; mas não justifica. Argumentar que a Igreja, por fazer obras meritórias nalguns campos, deve estar isenta de crítica noutros, é que me parece que se aproxima da atitude que RMD critica na sua nota final. Acho que ninguém no seu perfeito juízo negará as muitas obras notáveis produzidas pela Igreja ao longo dos tempos — em particular, nas missões humanitárias. Agora querer usar isso como defesa para o vergonhoso apelo ao não uso do preservativo é, para além de um esforço ingrato, um argumento que não colhe. Seria como não culpar os Aliados pelos bombardeamentos indiscriminados que fizeram sobre a Alemanha no fim da guerra — porque, afinal de contas, depois houve o plano Marshall. Seria como não acusar Fidel, dizendo «mas vejam lá, têm um dos mais eficientes sistemas de saúde do mundo». Não. Fidel tem que cair. Os Aliados são culpados. A opção da Igreja neste assunto é imoral. Memória selectiva? Maldade? Desonestidade intelectual?



::..hugo..:: 02:18

__________________________________________________________

::..4.11.04..::

E MORAL: é curioso verificar que a maior parte dos estudos estatísticos apontam a preocupação com «questões morais» como uma das principais razões que levaram os eleitores de Bush a fazer a sua opção de voto. Não me parece que o motivo bélico para o caso do Iraque — e os subprodutos Guantanamo e Abu Ghraib, nos quais a administração Bush tem uma responsabilidade política óbvia — contribuam muito para esta noção. A moral — a única coisa que nos separa da barbárie — anda pelas ruas da amargura. Quando a população com maior poder sobre os destinos do mundo entende que uma razão válida para votar num homem sem espinha é exactamente a preocupação com «questões morais», temos razão para preocupação. A não ser que quisessem, na realidade, dizer «questões religiosas». Aí a coisa já faria mais sentido. Não seria melhor, mas pelo menos já se entenderia: seria uma questão de identificação.



::..hugo..:: 02:00

__________________________________________________________

UM PAÍS GIGANTE: o engano é nosso. Dizemos «América» e lembramo-nos de Nova Iorque e de Las Vegas. Mas a América não é só isso. Aliás, a América não é nada isso. «Isso» é o imaginário colectivo. «Isso» é apenas uma pequena parte, uma das mil facetas dos Estados Unidos. A América é feita disso e de muito mais: de campos de algodão, de centeio, de milho, de tabaco; de fábricas; de pequeno e grande comércio; de grandes pensadores e de grandes cretinos; de excelente e péssimo cinema, de excelente e péssima literatura; de Universidades que formam a maioria dos melhores cientistas do mundo, e ao mesmo tempo, de escolas que querem banir a teoria da evolução dos seus programas curriculares. É o país que mais pornografia produz; e, ao mesmo tempo, um país onde onde existe um Partido Proibicionista. A América — sobretudo a América rural, do interior — é um país profundamente conservador; e, nas circuntâncias actuais, mais conservador se torna. A América é gigante — e Nova Iorque apenas uma pequeníssima fracção dela.



::..hugo..:: 01:18

__________________________________________________________

::..3.11.04..::

AREIA DEMAIS: no mesmo dia em que Bush ganha, a Janela Indiscreta acaba. Já não tenho dúvidas: o mundo uniu-se para acabar comigo.



::..hugo..:: 23:12

__________________________________________________________

ACABOU: Bush mais quatro anos. Alguém me explica como é que um homem que desencadeia uma guerra com base numa mentira é reeleito? A expressão já está tão gasta que por vezes parece perder a força: «desencadear uma guerra baseado numa mentira»; mas quando a releio apercebo-me novamente do absurdo. Uma guerra.



::..hugo..:: 09:07

__________________________________________________________

This page is powered by Blogger. Isn't yours?